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Viviane Alves – Artigos

Quando o amor não é batalha: por que estranhamos o que sempre desejamos?

Lidamos com o amor como se fosse uma batalha.
Crescemos aprendendo que amar é lutar, insistir, conquistar, fazer esforço, segurar o outro, implorar por atenção, controlar situações, disputar espaço, provar valor.
Fomos educadas — afetiva e emocionalmente — para acreditar que a relação só vale a pena quando exige sacrifício.

Por isso, muitas vezes, mesmo sem perceber, nos acostumamos com o amor que dói.
O amor que exige resistência.
O amor que precisa ser cuidado com medo de perder.
O amor que nasce no terreno do instável, do imprevisível, do “será que ele me quer?”.

E quando finalmente encontramos um amor que não exige batalha, que não pede guerra, que não machuca e nem testa, algo dentro de nós estranha.
Porque, de repente, o que sempre desejamos chega — e não sabemos como lidar.

Quando o amor não exige luta… e isso assusta

Às vezes, quando encontramos um amor tranquilo, recíproco, gentil, sentimos um vazio.
Não é falta de sentimento — é falta de adrenalina.
É como se, pela primeira vez, estivéssemos diante de algo que não exige armas nem defesas. E, sem a batalha, nos perguntamos:

“Será que isso é amor?
Será que não está fácil demais?
Será que não quero, ou será que não reconheço essa forma de amar?”

Porque o que é previsível, estável, contínuo, muitas vezes parece monótono.
Não porque realmente seja, mas porque não fomos ensinadas a reconhecer o amor saudável.
Fomos ensinadas a reconhecer o amor que falta, o amor que falta pedaços, o amor que faz correr atrás.

E quando o amor chega inteiro, fica difícil acreditar que é real.

O amor que acontece sem guerra desorganiza nosso modo de funcionar

Quando você diz:
“Será que não quero ou será que é meu modus operandi?”,
essa é a pergunta central.

Na psicanálise, entendemos que cada pessoa desenvolve um modo de amar, moldado pelas experiências da infância, pelas referências que teve, pelas ausências e pelas presenças vividas.

Algumas pessoas aprenderam que o amor vem com intensidade e insegurança.
Outras, que o amor exige constante prova.
Outras, que o amor só existe se houver drama.
E há também quem aprendeu que o amor é sempre quase — nunca inteiro.

Por isso, quando chega um amor estável, disponível e seguro, o psiquismo estranha.
É como se dissesse:
“Mas cadê a parte que dói?
Cadê a parte que me obriga a lutar?
Cadê o jogo que eu já conheço?”

Não estranhamos o outro.
Estranhamos a nós mesmas.
Estranhamos viver algo que não combina com nossas feridas antigas.

O familiar nem sempre é saudável — mas é confortável

O que é familiar para o nosso inconsciente cria sensação de conforto, mesmo quando machuca.
Por isso, muitas vezes continuamos repetindo padrões: relações desgastantes, parceiros distantes, histórias de abandono, ciclos de esforço emocional.

Não porque gostamos.
Mas porque reconhecemos.
É o tipo de amor que já sabemos como funciona.
E, de alguma forma, nos sentimos “preparadas”, mesmo que doa.

Já o amor que chega com calma, constância e verdade, não desperta nossas defesas.
E sem defesas, nos sentimos vulneráveis.
Paradoxalmente, amar sem luta pode dar mais medo do que amar lutando.

A fantasia do “grande amor” e a construção do amor possível

Muitas pessoas vivem esperando o “grande amor”, aquele que vai preencher tudo, curar tudo, resolver tudo.
Mas essa fantasia pode ser uma armadilha.

O amor não é um encontro mágico entre duas almas perfeitamente compatíveis.
O amor, na prática, é uma construção.
E não precisamos de um amor grandioso, cheio de histórias épicas.
Precisamos de alguém que esteja disposto a construir junto.

O amor maduro é mais sobre parceria do que sobre epopeias.
Mais sobre presença do que sobre espetáculo.
Mais sobre cuidado do que sobre conquista.

Mas como fomos ensinadas a romantizar o sofrimento, quando encontramos alguém que simplesmente se dispõe, parece pouco.
Parece simples demais.
Parece até sem graça.

A questão não é que o amor saudável seja monótono.
É que nós fomos ensinadas a desejar o amor que machuca — e isso precisa ser desaprendido.

Quando o silêncio assusta mais que o barulho

As relações intensas, caóticas e cheias de altos e baixos fazem barulho.
O corpo acelera, o coração dispara, cada mensagem vira um evento.
O sistema nervoso se adapta ao ritmo de alerta.

Quando um amor calmo chega, esse barulho silencia.
É como se o corpo estranhasse o descanso.
Como se não soubéssemos mais o que fazer com a paz.

O amor seguro parece “fácil demais”, mas é justamente o que possibilita consistência, intimidade, profundidade e construção a dois.

O desafio é permitir-se viver algo diferente do que você viveu até agora.

Desaprender para se permitir amar de um jeito novo

Aceitar um amor saudável é romper com crenças, com fantasias, com padrões antigos.
É admitir que você merece leveza.
É reconhecer que amor não é sinônimo de sofrimento.
É entender que a paixão acompanha o cuidado — não o conflito.

E isso exige coragem.
Coragem para abrir mão das batalhas emocionais.
Coragem para não controlar, não implorar, não lutar para ser escolhida.
Coragem para ser amada simplesmente por ser você.

Porque, quando não estamos acostumadas com isso, receber amor pode ser mais assustador do que perdê-lo.

Construir junto: a verdadeira essência do amor

O amor que vale a pena não é o que nos consome, mas o que nos sustenta.
Não é o que nos testa, é o que nos acolhe.
Não é o que nos exige, é o que nos acompanha.

Por isso, mais do que um grande amor, o que precisamos é de alguém com quem possamos construir:

Construir diálogo.
Construir intimidade.
Construir desejo.
Construir segurança.
Construir projetos, afeto e rotina.

Um amor que não precisa de batalha porque já existe na troca diária.
Um amor que não pede guerra porque se alimenta de honestidade e vontade de estar junto.

No fim das contas…

Talvez não seja que você “não quer”.
Talvez seja que você não reconhece — ainda — o amor que sempre desejou.

O amor saudável não é morno.
Ele é profundo.
Ele é estável.
Ele é vivo.
E ele exige que você se permita viver a relação que realmente merece — e não aquela para a qual foi emocionalmente treinada.

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viviane alves psicanalista e sexóloga

Viviane Alves – Sexóloga

Autor: Viviane Alves, sexóloga e terapeuta psicanalítica com mais de 10 anos de experiência. Minha missão é ajudar mulheres a resgatar a relação com o corpo, a sexualidade e a autoestima — com escuta acolhedora, sem julgamentos, leveza e bom humor.